sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A BABÁ AZUL


Entrei no banheiro do clube e me fechei num dos cubículos reservados a cada mortal que precise usar uma privada. Estava sem as crianças e isso aconteceu há muitos anos, quando eles ainda eram bem pequenos. Comecei a ouvir uma conversa entre uma menina e sua babá na parte não reservada do banheiro, de modo que elas não podiam me ver.
A menina, da idade das minhas gêmeas na época, com seus seis ou sete anos, estava tirando os patins dos pés, sentada no chão. Terminada a aula de patinação, calçaria os tênis ou sapatos ali no banheiro. Talvez trocasse de roupa também. Não vem ao caso.
Como a babá não cogitou da hipótese de haver alguém, uma mãe, em algum dos espaços individuais do banheiro, ela se sentiu livre para tratar a menina do jeito que achou conveniente. E a sua conveniência impressionou pela aspereza dos comandos emitidos e pela sua capacidade de agressão psicológica à qual a mãe da menina provavelmente sequer imaginara. Certamente, - foi a minha conclusão momentânea - essa babá não tratava essa menina dessa forma na frente daquela mãe.
Tá bem, eu sei. Há muitas, inclusive a sua babá, que são anjos caídos do céu, ou quase isso. Acredite. Deve haver. Mas, acredite também: algumas delas, não todas obviamente, podem se transformar na sua ausência e você sequer tomar conhecimento.
A quantidade de impropérios e a voracidade verbal daquela mulher não me fez sair para interromper tudo imediatamente. Na verdade, permaneci quieta, pois queria ver até onde aquele horror iria. Vou me poupar na reprodução aqui. Gastarei tempo e letras demais. Confiem apenas no meu julgamento de mãe.

Quando achei, finalmente, que havia ouvido o suficiente para um flagrante FUI! Abri a porta do meu cantinho reservado e apareci do nada. Encontrei a criança sentada no chão. Tentando retirar um dos dois patins sozinha, coisa que não estava conseguindo obviamente, porque a tarefa estava pesada demais para ela. Os impropérios versavam um pouco sobre isso. A babá estava em pé ao lado da criança. Quando me viu ficou roxa. De um roxo meio azulado. A menina? Essa, me disse: "olha só! Tu és amiga da minha mãe? Ela é a fulana de tal. Hoje ela foi pela primeira vez me assistir na patinação. Fiquei tão feliz!" A babá azul, coitada, foi tomada de outro ânimo repentinamente. Foi gozado porque jamais eu havia visto (ouvido) alguém mudar o tom de voz e a retórica em tão curto espaço de tempo “Sabe, a mãe dela tava no clube hoje e viu a aulinha dela de patinação...."
Nada contra as nossas ausências, que fique bem claro. Nós mães até mesmo precisamos muito de nosso espaço e nosso tempo, seja no trabalho, no esporte ou apenas num café com as amigas. Muitas de nós somos as provedoras dos nossos lares. E, o quê fazer? Como fiscalizar? Não sei a resposta, até porque me convenci que o ser humano é capaz, sim, de transformações. Assim como as babás.
Babás são pessoas. E como pessoas, são sujeitas às mais diferentes experiências em sua própria infância e crescimento. Não há como garantir que alguém estranho seja totalmente seguro para entrar na nossa casa e principalmente permanecer horas e horas cuidando dos nossos filhos.
Tive muitas babás. Nenhuma foi ótima. Algumas foram razoáveis. E muitas foram péssimas. Talvez meu olhar seja apurado em razão da minha permanência diária, em casa, acompanhando o crescimento dos meus filhos. Deixava-os aos cuidados exclusivos de babás por curtíssimos espaços de tempo e, mesmo assim, tenho histórias incríveis de descaso. Não de maus tratos. Mas, daquele tipo de falta de atenção que pode envolver um acidente de uma criança. E esses aconteceram bem debaixo do meu nariz. E da minha curta ausência.
Então, o quê fazer? Não sei. Só sei que estou azul de saber que alguma mudança no modo de coordenarmos a nossa moderna vida de mãe se faz necessária. Estou roxa em achar que talvez a família moderna precise ser remodelada para funcionar de forma mais saudável e viável do ponto de vista da criação dos filhos e da satisfação das mães.
Há mães que têm sorte. Que contam com a fiscalização de familiares, como, por exemplo, sua mãe ou seu pai. Esses olhos familiares, de sangue, agregam no cuidado dos filhos por uma babá, que pode ajudar muito, naquilo que muitas vezes um avô ou avó, diante da sua idade, tem dificuldade de fazer para cuidar do seu neto. Só que na maior parte das vezes não é assim. As crianças são confiadas inteiramente ao cuidado de babás e aí a gente volta ao início desse texto, infelizmente.

Solução? Não há. Talvez ajudasse se nos uníssemos, nós mães, para ampararmos umas às outras. Talvez ajudasse se os pais dos nossos filhos agregassem mais nos cuidados da própria prole. Talvez ajudasse...

sábado, 31 de outubro de 2015

TODAS NÓS TEMOS BOLA DE CRISTAL

Nós, mamães, temos bolas de cristal
Todas temos. 

maioria sabe que têm, mas umas sequer imaginam algo assim.
E para quê as bolas de cristal servem? Quando um dos meus filhos aplica uma invariável mentirinha, a bola me mostra. Também quando eles teimam em discutir sobre assuntos que, nós adultos, sabemos que está errado, a bola mostra tudo. Ou mesmo quando fica muito difícil de explicar porque não pode fazer alguma coisa, lá vem a bola de cristal de novo. 
Eu uso - confesso! Desculpem! - a minha bola de cristal.
Digo a eles que tenho uma, e que ela está escondida. Só eu posso pegá-la na mão e e ver as verdades. Asseguro que não posso ver tudo que se passa, mas que boa parte dos acontecimentos, sim. Achei que deveria haver uma linha de resguardo para erros na nossa intuição, é claro. Isso inclui algumas mentirinhas aplicadas que possam ser deixadas onde estão.

Bolas de cristal são objetos femininos na sua essência. Esféricos e de cristal - algo puro como uma mamãe. Segundo a história, é um elemento rico capaz de desvendar a intuição feminina. Não tem nada de bruxaria ou magia, isso é que é o mais legal.

Então, para os pequenos ficamos assim: há um elemento de magia no ar, que nada de mágico tem de verdade, mas que os fascina. Tudo que é mágico e fantasioso cativa a mente infantil. Não se pode jamais transformar essas coisas em negativas. Asseverar medinhos é tudo que não se quer.

Com a minha bola de cristal vejo a fumacinha que sai do nariz quando contam a mentirinha que me interessa revelar. Com esse mais puro objeto energizante asseguro que vi a malcriação que aconteceu na escola (na verdade a professora me contou tudo antes!), munida desse potencializador e centralizador de energia estou apta a garantir que não devem teimar em certas situações.


Bola de cristal de verdade só sei da minha. Dizem que elas são substâncias com muita energia e por isso catalizam forças da natureza.
O que se lê é aquilo que não se vê.
Lê-se aquilo que se sente.
Transmite-se aquilo que se quer.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

MÃES COLABORADORAS

Recebo muitas mensagens de mães.
Elas me leem e, nas suas mensagens, falam comigo sobre suas experiências maternas. Essa semana uma mãe escreveu algo comovente. Disse que sempre precisou trabalhar muito, pois seu marido foi embora de casa quando seus filhos ainda eram pequenos. Quando ele era presente, ela não trabalhava fora e, de uma hora para a outra, precisou colocar comida na mesa, pagar o colégio e arcar com tantos encargos do sustento da vida. Ela me disse que no decorrer de sua jornada nunca invejou as mulheres que tinham a opção de não trabalhar fora, porém acha que as crianças dessas mães tornam-se mais seguras em seu crescimento, em razão da presença materna em período integral.

Fiquei pensando nessa mãe. Ela faz parte da grande maioria de mulheres guerreiras responsáveis pelo sustento de suas famílias no Brasil e no mundo. Infelizmente é muito comum a situação de homens abandonando seus lares. Ao contrário, a quantidade de mães que abandonam seus filhos é mínima, insignificante. Fácil concluir que, nós mães, estamos sempre procurando equilibrar todos os múltiplos lados da moeda existencial. Quem trabalha e é independente, quer mais tempo com os filhos. Quem não trabalha acaba dependendo do marido (namorado, companheiro) e às vezes paga um preço caro demais no futuro. Aquelas que têm tudo sob controle, carreira e vida de mãe, na verdade, acabam revelando com o tempo, que estão sobrecarregadas.
Na verdade, parece que cada uma de nós tem uma história diferente para contar. Cada uma que conte e costure a sua história. Todavia, sei por experiência própria como é importante estar perto dos filhos para dar a eles mais do que carinho e atenção, nos dias complicados de hoje. Eles precisam de muita COLABORAÇÃO. Significa que é preciso aparar as arestas do desenvolvimento deles dia após dia, hora após hora. Não há conversa que não se tenha com os filhos hoje em dia.  Não consigo sequer imaginar quando é que uma mãe trabalhadora consegue tempo e oportunidade para conversar com seus filhos esses mais diversos e necessários assuntos.
No dia-a-dia com meus filhos há uma enxurrada de questionamentos sobre os mais complexos e diversificados assuntos. Eles já entenderam que podem e devem me perguntar sobre tudo que quiserem. Não existe assunto proibido. E olha que tem muita coisa para ser aparada. Além de haver muita coisa para receber o primeiro entalhe também. As crianças não têm noção de nada. Precisam que a gente conte histórias das nossas experiências de quando éramos crianças. E isso leva tempo. Contar histórias precisa calma, disposição e requer criatividade e atenção. Eles precisam que a gente conte brincando, colocando a dúvida dentro de uma história própria, que talvez nunca mais saia da memória emocional deles no resto de suas vidas. Ah! E servirá lá na frente, pode ter certeza!
Eles querem a nossa conversa! E os adolescentes não só querem, eles PRECISAM da nossa conversa, da costura materna ou paterna o dia inteiro!
Vejo muitos filhos de mães que precisam ausentar-se para trabalhar permanecendo dentro de casa por longos períodos após a escola. Essas crianças infelizmente não têm a chance de praticar alguma atividade extraescolar, como o tão necessário esporte. Levar e buscar na escola, para esses pais, já é muito difícil. Não dá para julgar, pois a vida moderna está a nos impor um ritmo diabólico. Mas está acontecendo algo que talvez as pessoas não estejam se dando conta: muitas das nossas crianças estão vivendo verdadeiro claustro. Em casa o dia todo ou grande parte do dia, diretamente no computador, comendo qualquer coisa menos alimentos saudáveis, sem se exercitar, sem brincar e também sem ter um educador para conversar. Que pode ser pai ou mãe. Mas, que em geral é a mãe.

E é essa a diferença na educação que a mãe que me escreveu ressalta. As crianças e adolescentes que têm um bom respaldo educacional se relacionam melhor com os outros. Além disso, têm uma destreza única em brincadeiras, são soltas, vivem aquela liberdade de espírito que se via nas crianças de antigamente, quando a gente podia brincar na rua, sair na chuva, ralar um joelho, subir em árvores e gritar bem alto olhando para o céu. Certamente que hoje em dia até as crianças que fazem esporte, que saem de casa, que vão para o clube, estão limitadas pelas mazelas da vida moderna das grandes cidades. Mas, pelo menos, que se possa oferecer a esses nossos pequenos viver a própria infância.
A atribulação da vida moderna está engolindo a infância das nossas crianças. Dia após dia, tira delas uma infância que não volta mais. Passados os anos em claustro, eles deixam de experimentar etapas fundamentais do desenvolvimento cognitivo, emocional e relacional.

Assunto difícil esse, pois as mães estão todas sobrecarregadas. Mas, dentro da história de cada uma de nós sempre será válida a reflexão e a consciência para melhorar e construir ao lado dos nossos filhos dias melhores e mais criativos. Certo é que dentro de uma família, seja qual for a modalidade de família, tem que haver colaboração, para haver o crescimento dos filhos, e porque não dos pais e das mães também?  

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

INDIVIDUALISMO E DIAS DE CHUVA



treze anos sou mãe de um. Há onze anos sou mãe de três. Acreditem, já vi de tudo nessa área materna. Mas, uma das situações que mais me comove, pra não dizer me irrita, é a incapacidade da maioria das pessoas em ser SOLIDÁRIO.
Não fico mais irritada com isso, porque já não tenho mais expectativas de que as pessoas ajam diferentemente. Então, não estrago mais minha pele, meu cabelo e minha relação com meus filhos vivendo uma descarga de estresse em decorrência de fatores externos. APRENDI.
Todavia, me COMOVE ver como as pessoas são individualistas e não solidárias umas com as outras. Não me surpreendo mais ao enxergar que meus filhos viverão em um mundo no qual ninguém se coloca na situação do outro, não há respeito e consideração por ninguém. Apenas, me comove.
Mais uma vez a cidade é assolada por TEMPESTADES indômitas. Acordamos sem luz, árvores atravessadas nas calçadas, transporte público caótico e qualquer possibilidade de ir e vir comprometida pelo acaso. Então, além da situação de colapso social pela qual passa a nossa sociedade em tempos de crise, enchentes e falta de segurança pública, temos que lidar com as pessoas vítimas desses colapsos. E lidamos. Mas, somos poucos os que ajudamos. Em geral, quem ajuda o outro é quem também precisa ou alguma vez precisou, de fato, ser ajudado. Pessoas que nada sofrem na vida, nada ajudam. Isso é fato.
Lembrei-me hoje, diante do aguaceiro que bate na nossa janela e das árvores que sacodem lá fora, que muito pouca gente me ajudou ao longo do meu percurso de mãe. A chuva revela as lembranças, como se a tinta da memória fosse umedecida e aos poucos fosse revelando a AQUARELA dos anos:
1)   Hoje, neste exato momento, são 5 adolescentes na minha casa. Como tenho três, e como chove torrencialmente lá fora, porque não mandar mais dois, pelo menos, para passarem a tarde “brincando” com os meus filhos?
2)   Se essa mãe tem três filhos, então não há nada de mais em carregar mais um ou dois de carona na volta da escola, não é mesmo? Mas, evidentemente, quando ela, a mãe dos três, precisar, não haverá lugar no carro para acomodá-los, pois SÃO TRÊS!!! Quem quer dar carona para três? Absolutamente ninguém.
3)   Pra quê atender uma mãe que liga pedindo ajuda para buscar filhos na escola ou levá-los ao médico, quando ela mesma está passando mal, com febre ou ânsia de vômito? Ainda mais se considerarmos ser pai, ser tio ou mesmo avó ou avô das crianças? Imagina! É evidente que essa não é tarefa para nenhum deles. É da mãe, como prescreve a norma imaginária do INDIVIDUALISMO de muitos.
4)   Pra quê convidar, se seu filho pode ser convidado? Afinal, ela não têm três? A casa dela já deve ser bagunçada mesmo. Mais um não fará a menor diferença pra ela.

Aprendi com os dias de chuva, com a condição de esposa, ex-mulher e mãe, com a indolência dos indivíduos que pairam por perto, com o silêncio do descomprometimento alheio, até mesmo daqueles que têm obrigação legal de atender os próprios filhos, que as minhas regras são as que devem prevalecer dentro da minha casa e no que concerne aos meus filhos. Diante disso, a coisa toda começou a ficar engraçada. Já que, de uma hora para a outra, alguns começaram a me achar ANTIPÁTICA. Não me interessa. Fiz a seguinte equação:
“Entre alguém me achar antipática,
e eu ter que passar por uma situação que me agride,
para que outra pessoa fique feliz,
então azar o dela.
Fico sendo antipática,
mas não compactuo com situações que me agridam
ou  me deixem contrariada”.   
 Então, coloco horários. Coloco condições. Coloco limites dentro da minha casa e ajudo apenas quem entendo que mereça minha ajuda e meu comprometimento. Enquanto escrevo esse texto, há cinco adolescentes fazendo lanche na minha cozinha. Nenhuma das mães dos amiguinhos ligou para saber se está tudo bem. Ninguém se manifestou para buscar um ou outro. Claro que existem exceções. Há mães super educadas e solidárias com as outras mães e comigo, claro. Confesso que são poucas! 
O pai dos meus filhos brinca de trabalhar e não leva nem busca nem traz nem faz nem desfaz. Quanto mais a ele se pedir, ou mostrar a necessidade da ajuda com os filhos, menos ele faz. É especializado em sumiços. A vida dele com os três filhos se resume ao divertimento dos horários de visitação, duas noites por semana. No resto do tempo, a cretina da mãe que se lixe. E isso acontece com muitas e muitas das mães por aí! 
Não seria por isso que muitas somos verdadeiras tempestades ambulantes?
Vou parar por aqui. Senão vou ficar muito antipática com essa chuva toda que cai na minha aquarela colorida de crianças

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

FAZENDO DE CONTA NO DIA DAS CRIANÇAS

Em tempos de crise econômica, para a maioria dos pais, enfrentar uma data como o dia das crianças pode ser angustiante. “Ter que presentear” muitas vezes nos põe em uma saia justa e, principalmente quando se trata de um filho, ficamos revoltados em não poder proporcionar o presente que entendemos merecido. Todavia, a realidade nos assola e temos que reavaliar os planos para os pequenos em alguns momentos da vida. Nada que eles não possam superar, me parece.
A importância de poder traduzir para os filhos os mais variados momentos da vida familiar os faz fortes emocionalmente e os treina para as adversidades que enfrentarão no futuro.
“Não, filho, não vamos viajar porque não tem dinheiro suficiente”;
“Não, você não pode ter aquele brinquedo, porque eu não posso pagá-lo nesse momento. Quem sabe noutro dia eu possa?”;
“Aquela roupa, daquela loja, não vai dar, mas podemos procurar outras alternativas, juntas. Que tal?”
Conheço inúmeras pessoas, mães e pais, que não conseguem negociar com seus filhos absolutamente nada. Seus filhos são seus algozes. Exigentes e ilimitados em vontades estorvantes. Talvez os pais estejam respondendo desta maneira às vontades dos filhos por CULPA.
Culpa por não estarem disponíveis aos seus filhos;
culpa por estarem obrigados à ausência diária em decorrência do trabalho excessivo;
culpa pela separação, que trouxe perdas memoráveis e cargas explosivas;
culpa porque simplesmente ter um filho era diferente do que imaginavam e agora não querem brincar de casinha, não querem conviver, não querem dizer NÃO, e aí, dizem sempre SIM. Um “sim” de mentirinha, para um conveniente subterfúgio.
Num dia das crianças afundado em época de limitações financeiras talvez seja uma boa saída usar outros recursos para alegrar a vida das crianças. E porque não alegrar também a vida da família toda? Que graça teria o dia de uma criança, se não fosse também o dia da mamãe “criança”? Nós mães, somos a alma da casa. Somos quem inventa. Na maior parte dos lares, somos quem guia a família toda. E as crianças têm uma memória maior que a de um elefante, quando se trata de experiências em família. Elas levam para sempre em seus corações os momentos que fizeram programações com sua família. Há várias possibilidades que envolvem pouco custo e que os pequenos amam!
Aqui em casa, por exemplo, faremos um almoço especial do dia das crianças. Todos estarão imbuídos nos preparativos. 
Nega maluca feita pelas crianças é tudo de bom!!!
Dar uma pedalada no parque no Dia das Crianças pode ser revelador. Em geral, há atividades relacionadas às crianças nos parques e clubes das cidades e, muitas vezes, são gratuitas. Participar das programações da sua própria cidade com as crianças é uma ótima pedida. Nunca houve aqui na minha casa um único dia das crianças no qual se lembraram, no ano seguinte, qual havia sido o presente que ganharam. Mas, sempre se lembraram dos momentos passados em família, do carinho compactuado em pequenas lembranças significativas e do tamanho do presente que é ser criança nessa vida.

Nossos filhos são especialistas em campanhas políticas. Sobem ao palanque diário e nos pedem de tudo. Nós mães e pais, precisamos conseguir ler as entrelinhas dos pedidos e descobrir que querem nada mais, nada menos, que ALEGRIA. Alcançamos a elas essa dádiva? Nem sempre. O espírito de cada mãe condena, às vezes, as coisas da alma ao mundano. Não brinca. Não alegra. Não deixa feliz. Porque, às vezes, ou sempre, a alma da mãe não tem essa moeda nem para ela, será que tem para entregar? Não tem. Não dá, muitas vezes. E a criança no palanque faz a política da entrega da ALMA. A mãe responde por tudo, por amor, por doença, por ordem e por progresso. Então, porque NÃO BRINCAR? Porque não lembrar-se dessa alma, que habita o corpo, e sacudi-la para que entregue a alegria que grita o palanque dos filhos? Eles precisam mais de brincadeiras e precisam menos de brinquedos. Brincar dá trabalho, expõe, tem TEATRO. Mas também tem SORRISO. Dos dias vividos, nossos filhos não levam o mundano no coração. Eles carregam e salvam para a suas vidas o “trabalho brincado”, muitas vezes duro para a alma materna. No dia das crianças, ser mãe com ALMA é uma dádiva. Que tal dar esse presente no dia deles? 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

PASSEIOS COM FILHOS MÚLTIPLOS – CADA UM NA SUA VEZ

Este ano coloquei em prática uma ideia que havia tido há muitos anos atrás. A ideia é passear com um dos filhos de cada vez. Para os pais de filhos únicos essas palavras não fazem nenhum sentido, pois estão sempre passeando com seus únicos. Todavia, para terem a experiência de programações envolvendo várias crianças, terão que levar um amiguinho ou um priminho, que não é a mesma coisa. Nada pode substituir (perdão mães de únicos!!!) aquela mesa farta de conversas atravessadas das grandes famílias em seus almoços ou jantares. É uma memória eterna na vida de uma mãe! Digamos que é uma memória visceral!
Saí com o mais velho primeiro e ele escolheu tomar um milk shake numa sorveteria do bairro. 

Ele falou muito! Contou várias coisas que eu jamais saberia, sobre suas expectativas e experiências de adolescente. Foi revelador. 
No mês seguinte foi a vez de uma das gêmeas. Fomos almoçar juntas e fazer programas culturais. O papo não rolou muito solto, mas notei que ela observava com atenção todas as novidades na sua volta. Mostrei a ela locais que jamais iria antes de se tornar adulta, como a Catedral Metropolitana e parte do centro histórico da cidade. Aproveitei para contar fatos e histórias da minha juventude passadas nos arredores, explicar o funcionamento da área central da cidade, muito diferente do bairro que ela mora. 
Quando entramos na Catedral, fui surpreendida com a afirmação de que ela já havia estado lá. Com o colégio, esclareceu. Mas, nessa visita estava achando tudo muito diferente, pois tivemos a oportunidade de nos sentarmos, contemplarmos todas as nuances da nave central da igreja, quieta, reticente à história da cidade. Ela me contou que, quando fez a visita com a escola, não conseguiu prestar atenção em quase nada, por causa do barulho dos colegas e a inquietação da turma. Como foi importante mostrar a ela a satisfação que é poder contemplar calmamente e absorver as modulações com os sentidos conectados
A outra gêmea seguiu no próximo mês e fizemos um programa cultural bastante sofisticado, ou seja, a cara dela! Visitamos uma galeria de arte 

nova e muito bacana e almoçamos no bistrô no mesmo local. Também não fui brindada com muita conversa e sim com um comportamento de uma menina educada e atenta ao ambiente, o que me deu grande satisfação e me mostrou que estou costurando certinho a educação da galera. Além disso, ela curtiu demais as pinturas, e se deteve concentrada na arte a admirar.
Esses passeios exclusivos foram uma revelação para mim. Entendi que estão mais crescidos, de modo que essa experiência se tornou possível. Nem sempre foi assim. Quando eram menores esse tipo de coisa era impraticável. Eu me limitava a ditar uma regra, minimamente democrática em sua essência, e todos tinham que se enquadrar. Não fosse assim, virava bagunça. Também não tinham noção de prioridade. Lembro quando as meninas fizeram uma gritaria horrorosa em frente à escolinha infantil, quando tinham lá seus cinco aninhos, porque tive a mesma motivação.
Fui buscá-los um final de tarde e falei bem assim, como quem diz uma coisa muito legal, que elas (as gêmeas) iriam sair sozinhas comigo uma de cada vez. Ficaram me olhando como quem assiste a um fantasma branco, esquálido e horripilante. Não entendi nada. Achei que tinha dado a notícia dos ovos de ouro! Então, de repente, iniciaram um choro múltiplo e ansioso, que acabou chamando a atenção da professora, já na saída do turno, quando nos dirigíamos para ir embora para casa. Juntas, tentamos conversar e entender o que se passava. Afinal, eu, em minha ingênua percepção de minha falta de astúcia comunicativa, não havia nem de perto percebido que estavam chorando porque não importava se iriam passear SOZINHAS com a mamãe e, sim, o importante era saber quem iria passear PRIMEIRO com a mamãe.
A professora começou a rir! E eu fiquei visivelmente irritada, pois encarei essa frustração como gratuita já que imaginava estar contando uma ideia muito bacana para as minhas gêmeas! Afinal, para mim era certo que ambas iriam adorar estar em um momento cheio de novidades e sozinhas com a mamãe! Todavia, jamais me passou pela cabeça que o importante seria quem vai PRIMEIRO! Tentei explicar a elas que isso não era importante. Cada uma teria o SEU momento único com a mãe e essa era a condição que valia. Assim, uma iria sair comigo numa semana e, na semana seguinte, seria a outra. E, ao término da minha explicação, outro berreiro tinha início e a professora novamente não podia deixar de rir. Minha fisionomia foi perdendo a graça e a disposição, diante da constatação de que, em geral, crianças dessa idade - por volta, ou menores, de cinco anos - são IMEDIATISTAS.
As crianças pequenas entendem o que se passa naquele momento presente, resgatando uma ou outra condição emocional de seu breve passado, em geral, experiências ligadas à sua rotina diária. Através desse mecanismo ainda incompleto, a criança na primeira infância vai “tecendo” a sua teia de experiências emocionais e sensitivas com muita rapidez. Todavia, elas não têm ainda o seu cérebro preparado para postergar um evento. Muitas vezes, fazê-las abrir mão de um brinquedo para entrar no banho é uma tarefa árdua para o adulto, pois esses pequenos travam uma batalha para não parar de brincar e jamais entendem que poderão retornar à brincadeira quando saírem do banho. Assim, as minhas gêmeas só entendiam uma informação, crua e imediata: “Ela vai levar a minha irmã para passear, e eu não vou ir!” O momento em que a outra iria passear com a mamãe ficou inimaginável na interpretação delas. Desisti, frustrada e nunca mais voltei a dar um fora desses.
Foram necessários mais cinco anos para refazer a proposta. Só entenderam-na quando já estavam com mais de dez anos de idade. Combinei com elas que cada uma teria o seu momento com a mamãe, individualmente, numa saída para alguma programação numa vez no mês. E olha que uma vez por mês é bastante tempo de espera para uma criança. E não é que deu certo! A gêmea que está na espera aguarda com paciência e parece saber dimensionar claramente o tempo, enquanto a outra curtiu comigo seu momento de exclusividade. O meu mais velho...bem, aproveitou o mesmo esquema, mas, como todo o adolescente menino teve lá seus momentos de “não to muito a fim, mãe!”

A oportunidade de dispor, não só da atenção da mamãe, mas também de seu inteiro olhar carinhoso em oportunidade única, que ninguém poderá subtrair, dá cumplicidade à relação entre mãe e filhos. Momentos memoráveis, tão valiosos como estar com todos à mesa para uma refeição em família. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CORRER COMO UMA MÃE ou SER UMA MÃE QUE CORRE?

Todas nós corremos demais no nosso dia-a-dia, da manhã à noite. Envolvidas com a profissão, com os filhos, com a vida doméstica e tantas outras variáveis que pontuam nosso tempo. Muitas mães, todavia, encontram na atividade física grandes benefícios para seu bem-estar e acabam também se fortalecendo para enfrentar a correria de sempre. Em especial, as mães corredoras têm se revelado mulheres felizes e realizadas, levando para suas vidas um padrão de comportamento saudável e alegre. Na grande maioria, as suas famílias acabam sendo afetadas diretamente pela corrida e o que se vê, cada vez mais ao longo dos anos, é que as famílias inteiras acabam incorporando os bons hábitos que a corrida propaga. Nunca sobra tempo para as mães, mas aquelas que correm sempre encontram momentos que não existiam e fazem a vida correr ao lado delas.

Como sou corredora e mãe há muitos anos, encontrei diversos tipos delas: conheço mães gordinhas que correm muito; sou amiga de mães que trabalham demais e correm também; tem aquelas que são competitivas e não perdem a oportunidade de se testarem em provas de corrida; há umas que correm de vagarzinho e adoram ficar papeando com as outras e se divertindo; outras correm muito rápido, rápido mesmo; têm umas que fazem uma imersão em seus pensamentos, tratando sua alma e seu espírito durante a corrida; tem as que adoram correr com seus parceiros (maridos, companheiros, namorados) e ali curam a alma do casal. Conheço quem corre 3k, quem corre 5k, quem corre 10k, quem corre 16k, quem corre 21k (meia-maratona) e quem corre 42k (maratona) e, também, quem corre 160k ou mais (ultramaratona)! São muitas mães correndo! E, sabe?! Todas elas são alegres e felizes e são a essência em suas famílias! A corrida é um antídoto para a auto-estima de uma mulher e também para a sua saúde física e psicológica, além de contribuir para a boa forma física.

Correr também é difícil. Demora algum tempo, e uns bons treinos, pra gente gostar de verdade e sentir aquela euforia causada pela liberação da endorfina (hormônio produzido no próprio organismo, responsável pela sensação de bem-estar, melhora do humor e autoanalgesia, durante e após a prática de atividade física intensa). Muitas mães encontram dificuldades em manter a regularidade dos treinos a ponto de conseguir chegar ao patamar em que realmente gozem os prazeres da corrida. E acabam desistindo, infelizmente. Dá pra entender, né? Mães passam noites em claro atendendo filhos doentes. Muitas vezes se alimentam mal e trabalham em jornadas exaustivas. Outras tantas vezes o assédio das crianças e do marido é tão grande em casa, que não dá para imaginar calçar tênis e sair para a rua, mesmo que este seja o maior desejo da supermamãe.

Como mãe-corredora enfrentei todos esses e outros tantos percalços e houve épocas da minha vida com meus três filhos em que não pude correr quase nada. Mas, alguma coisa eu sempre corria. Alguns daqueles quilômetros que falei que as mães correm acima, eu efetivamente dava um jeito de correr. E é essa a diferença das mães que correm e das mães que se atropelam na correria. A corrida ensina a fazer ajustes na rotina e se a gente persiste, vai ganhar essa vitória só para si. Tem alguns truques de mães mais experientes que fazem a diferença para as iniciantes:
·         Correr pela manhã é mais prático – colocar a atividade como a primeira do dia e depois se arrumar e ficar pronta para sair e trabalhar é muito melhor.
·         Separar todos os apetrechos e roupas para a corrida na noite anterior é fundamental – agiliza a saída para o treino.
·         Correr em dias alternados – todo o bom corredor sabe como é desgastante correr todo o dia; o melhor é alternar com outra atividade física, como musculação ou alongamento, por exemplo.
·         Se a noite foi difícil atendendo as crianças é bom dimensionar o tamanho do cansaço – às vezes dar uma corrida no parque pode fazer a mamãe cansada relaxar e descansar melhor na próxima noite ou mesmo mais tarde, antes do próximo “turno de atendimento”. Mas, se o atendimento à criança doente se prolonga por muitas noites, talvez seja melhor não correr por alguns dias e retomar depois.
·        Levar o marido e os filhos junto, ao parque, também é um grande negócio – depende muito do funcionamento de cada casal e de cada família, mas pode render uma boa corridinha de uns trinta a quarenta minutos.
·         Fazer novas amizades através da corrida – quando estamos vinculadas com pessoas imbuídas no mesmo propósito é bem mais legal. A prática me ensinou que a gente faz amizade no parque, no treino, na equipe de corrida. Jamais vai prosperar a corrida se você pegar a sua melhor amiga que nunca correu e levar para o parque. Ela só vai ir umas três vezes, no máximo. Pode ter certeza.
·         Entrar para uma equipe de corrida – meus melhores treinos foram sempre vinculados à equipe de corrida. Lá se faz parcerias, que fortalecem o propósito e criam vínculos saudáveis.


Não há condição melhor na vida do que ter filhos, para aprendermos a farejar nossas potencialidades. E a corrida é um potencial que ensina a ter paciência e força para administrarmos todas as outras áreas em que precisamos atuar sem parar. Então, você é uma mãe que corre ou uma mãe corredora?

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