sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A BABÁ AZUL


Entrei no banheiro do clube e me fechei num dos cubículos reservados a cada mortal que precise usar uma privada. Estava sem as crianças e isso aconteceu há muitos anos, quando eles ainda eram bem pequenos. Comecei a ouvir uma conversa entre uma menina e sua babá na parte não reservada do banheiro, de modo que elas não podiam me ver.
A menina, da idade das minhas gêmeas na época, com seus seis ou sete anos, estava tirando os patins dos pés, sentada no chão. Terminada a aula de patinação, calçaria os tênis ou sapatos ali no banheiro. Talvez trocasse de roupa também. Não vem ao caso.
Como a babá não cogitou da hipótese de haver alguém, uma mãe, em algum dos espaços individuais do banheiro, ela se sentiu livre para tratar a menina do jeito que achou conveniente. E a sua conveniência impressionou pela aspereza dos comandos emitidos e pela sua capacidade de agressão psicológica à qual a mãe da menina provavelmente sequer imaginara. Certamente, - foi a minha conclusão momentânea - essa babá não tratava essa menina dessa forma na frente daquela mãe.
Tá bem, eu sei. Há muitas, inclusive a sua babá, que são anjos caídos do céu, ou quase isso. Acredite. Deve haver. Mas, acredite também: algumas delas, não todas obviamente, podem se transformar na sua ausência e você sequer tomar conhecimento.
A quantidade de impropérios e a voracidade verbal daquela mulher não me fez sair para interromper tudo imediatamente. Na verdade, permaneci quieta, pois queria ver até onde aquele horror iria. Vou me poupar na reprodução aqui. Gastarei tempo e letras demais. Confiem apenas no meu julgamento de mãe.

Quando achei, finalmente, que havia ouvido o suficiente para um flagrante FUI! Abri a porta do meu cantinho reservado e apareci do nada. Encontrei a criança sentada no chão. Tentando retirar um dos dois patins sozinha, coisa que não estava conseguindo obviamente, porque a tarefa estava pesada demais para ela. Os impropérios versavam um pouco sobre isso. A babá estava em pé ao lado da criança. Quando me viu ficou roxa. De um roxo meio azulado. A menina? Essa, me disse: "olha só! Tu és amiga da minha mãe? Ela é a fulana de tal. Hoje ela foi pela primeira vez me assistir na patinação. Fiquei tão feliz!" A babá azul, coitada, foi tomada de outro ânimo repentinamente. Foi gozado porque jamais eu havia visto (ouvido) alguém mudar o tom de voz e a retórica em tão curto espaço de tempo “Sabe, a mãe dela tava no clube hoje e viu a aulinha dela de patinação...."
Nada contra as nossas ausências, que fique bem claro. Nós mães até mesmo precisamos muito de nosso espaço e nosso tempo, seja no trabalho, no esporte ou apenas num café com as amigas. Muitas de nós somos as provedoras dos nossos lares. E, o quê fazer? Como fiscalizar? Não sei a resposta, até porque me convenci que o ser humano é capaz, sim, de transformações. Assim como as babás.
Babás são pessoas. E como pessoas, são sujeitas às mais diferentes experiências em sua própria infância e crescimento. Não há como garantir que alguém estranho seja totalmente seguro para entrar na nossa casa e principalmente permanecer horas e horas cuidando dos nossos filhos.
Tive muitas babás. Nenhuma foi ótima. Algumas foram razoáveis. E muitas foram péssimas. Talvez meu olhar seja apurado em razão da minha permanência diária, em casa, acompanhando o crescimento dos meus filhos. Deixava-os aos cuidados exclusivos de babás por curtíssimos espaços de tempo e, mesmo assim, tenho histórias incríveis de descaso. Não de maus tratos. Mas, daquele tipo de falta de atenção que pode envolver um acidente de uma criança. E esses aconteceram bem debaixo do meu nariz. E da minha curta ausência.
Então, o quê fazer? Não sei. Só sei que estou azul de saber que alguma mudança no modo de coordenarmos a nossa moderna vida de mãe se faz necessária. Estou roxa em achar que talvez a família moderna precise ser remodelada para funcionar de forma mais saudável e viável do ponto de vista da criação dos filhos e da satisfação das mães.
Há mães que têm sorte. Que contam com a fiscalização de familiares, como, por exemplo, sua mãe ou seu pai. Esses olhos familiares, de sangue, agregam no cuidado dos filhos por uma babá, que pode ajudar muito, naquilo que muitas vezes um avô ou avó, diante da sua idade, tem dificuldade de fazer para cuidar do seu neto. Só que na maior parte das vezes não é assim. As crianças são confiadas inteiramente ao cuidado de babás e aí a gente volta ao início desse texto, infelizmente.

Solução? Não há. Talvez ajudasse se nos uníssemos, nós mães, para ampararmos umas às outras. Talvez ajudasse se os pais dos nossos filhos agregassem mais nos cuidados da própria prole. Talvez ajudasse...

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